Contos de Verão – 1. Nestor

Contos de Verão

1. Nestor

– “Nestor” – repetiu ela. Depois: – Ninguém mais se chama Nestor.

– Devo ser o último.

– Você tem alguma outra coisa diferente?

– Faço isto.

Dobrou o dedo indicador para trás, até quase tocar o braço.

– Que mais?

– Multiplico qualquer número por qualquer número, até três dígitos.

– Trezentos e vinte e quatro vezes duzentos e um.

Ele fechou os olhos para pensar. Depois abriu-os e perguntou:

– Por quê?

– Como, “por quê”?

– Eu sei a resposta, mas só digo se você for adiante.

– Como, “for adiante”?

– For adiante. Perguntar tudo a meu respeito. Me contar tudo a seu respeito. Se nós passarmos deste ponto, não podemos voltar atrás. Vamos nos conhecer profundamente. Vamos ter um relacionamento intenso e total.

– Como “total”?

– Precisamos nos definir agora. Ou isto é um encontro casual na praia, e não significa nada, e nunca mais nos veremos, ou é o encontro das nossas vidas. Você escolhe. Eu já fiz a multiplicação na cabeça e já sei a resposta, mas só digo se você estiver disposta a ir adiante.

Ela hesitou. Disse:

– Eu tenho namorado.

– Então acho melhor parar por aqui.

Ela fechou um olho, fez uma careta e perguntou:

– Você é muito estranho?

– Não posso dizer. Você vai descobrir. Ou não.

Nova hesitação. Ela fazendo um buraco na areia com o calcanhar, tentando se decidir. Finalmente

– Tá bom. Qual é o resultado?

– Sessenta e cinco mil, cento e vinte e quatro.

– Como é que eu sei se está certo?

– Você não sabe.

Dezessete anos depois ela perguntou se naquele dia, na praia, ele tinha acertado mesmo o número, e ele, apertando as correntes em torno do bustiê de couro preto que ela usava sobre a pele, respondeu:

– E eu me lembro?

Fragmento del libro As Mentiras que os Homens Contam de Luis Fernando Verissimo. Todos los derechos pertenecen a su autor.

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